segunda-feira, 14 de maio de 2012

DEUS DIANTE DO MAL: SENTIDO OU ORIGEM?



            Acredita-se que a questão mais inquietante para o ser humano é o mal. Todo e qualquer ser humano busca sua origem e vive uma revolta constante em relação a sua vivência na concretude de seu dia-a-dia. Diante desse fato, pretende-se entrar numa das questões que mais incomoda os crentes judaico-cristãos: “Se Deus é infinitamente bom e amoroso e ainda é onipotente, por que o mal e o sofrimento?”. Será de suma importância analisar essa questão, pois nela há a possibilidade de duas interpretações diferentes. E partindo de tal análise poderemos apontar as suas duas possíveis apreciações e/ou respostas.
            Na questão existe a união da preposição “por” e do pronome interrogativo “que” (por que). Esta forma dá possibilidade duas interpretações para a pergunta mencionada. Numa primeira interpretação poder-se-ia estar buscando o sentido do mal, o “para que” do mal; já numa segunda interpretação poder-se-ia estar buscando a origem, a razão, o motivo (as duas últimas, num sentido de causa) da existência do mal. Isto é, na primeira proposta há uma busca do sentido que a questão do mal assume diante da presença bondosa-onipotente de Deus, já na segunda possibilidade há um questionamento sobre a origem e princípio do mal, pois o Deus judaico-cristão é considerado o Criador de todas as coisas, pelas mesmas religiões (cf. sobre o “por que” PASQUALE & ULISSES, 2003, p.529-530).
            Em se tratando da primeira questão o ser humano se depara com a bondade amorosa de Deus e com sua onipotência e se pergunta o sentido do seu padecimento e do mal. Diante de tal questão, aponta-se que o ser humano foi feito para felicidade e não para o mal, porém, o mal existe. Numa primeira proposta encontrar-se-ia a resposta de que é conseqüência dos erros humanos, pois o ser humano é dotado de uma vontade livre[1] e diante de suas ações livres, pode ter que padecer os sofrimentos e mal, pelo motivo de suas más deliberações. O sofrimento aqui “serve à conversão, isto é, à reconstrução do bem no sujeito, que por reconhecer a misericórdia divina neste chamamento à penitência” (JOÃO PAULO II, 2009, p.21).
            Entretanto o questionamento continuaria em relação às pessoas boas/justas que têm de padecer os sofrimentos e dores – muitas vezes até mais intensos. Quanto a isso, Dom Luciano Mendes de Almeida em seu livro Paixão pela Vida: Resposta ao Sofrimento Humano, afirma que:
todos aqueles que estão perdoados e cujo coração está em Deus continuam assumindo o sofrimento humano, que não lhes é mais devido. Sabem que são ‘amados por Deus’, mas ficam na dureza da vida, no mundo, por causa dos irmãos [...] a lei para os que já estão remidos é: ficar aí, no mundo... (ALMEIDA, p.23-24)
Para Dom Luciano e também para o papa João Paulo II, em sua carta apostólica salvifici doloris, o ser humano justo e bom padece os sofrimentos em solidariedade e amor para com os outros. Seguem o exemplo de Deus, que assume por amor a humanidade e vive todos os sofrimentos até o maior deles, a morte: “O sofrimento humano atingiu o seu vértice na paixão de Cristo; e, ao mesmo tempo, revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova: ele foi associado ao amor...” (João Paulo II, 2009, p.35).
            Ressalta-se que o sofrimento não pode ser assumido como uma forma passiva, onde as pessoas – justas ou não – apenas recebem a dor e não reagem. O homem é chamado, seja cristão ou não, a assumir “a atitude de revolta e de incessante combate contra o mal e o sofrimento” (DEUS E O PROBLEMA DO MAL, p. 141), mas essa atitude de revolta e de combate deve se fundar de fato nas duas certezas: 1) o homem é feito para a felicidade, e Deus não quer nunca o mal nem o sofrimento; 2) aparentemente impotente diante do mal, Deus é, contudo, solidário com os homens em seu sofrimento.[2]
            Surgem, então, a segunda pergunta, onde se questiona (adaptação da pergunta): “se Deus é o onipotente e bom, donde vem o mal?”.
            Ora, existem algumas respostas sobre essa questão, porém nenhuma consegue chegar a um consenso e única resposta convincente[3]. Diante desse questionamento, o fator Deus bom-onipotente se depara com a maior dificuldade encontrada para o estudo da questão do mal e do sofrimento. Se há uma origem para o bem do ser humano, há também uma origem para o mal, pois o mal é sempre evocado como anulação do bem[4]. Então a pergunta continua sem resposta, pois Deus é a origem do bem, é capaz de fazer tudo e o fez para o judaísmo e o Cristianismo, porém o mal não é um bem e está ai, na existência: “Deus é onipotente; Deus é absolutamente bom; no entanto, o mal existe (enquanto) apenas duas dessas declarações são compatíveis, mas jamais as três juntas.” (RICOEUR apud DEUS E O PROBLEMA DO MAL, p.124).
            Portanto, ao tratar de uma das questões mais fundamentais do ser humano, o Mal, tem-se o chamado a levar em consideração toda a perspectiva do mal e do sofrimento, desde sua interpretação e assimilação de sentido até as suas origens e fundamentos de existência. Esta última questão talvez seja o maior incômodo encontrado pelo ser humano judaíco-cristão, visto que ele acredita em um Deus bom e onipotente que tem a possibilidade de ser o criador do mal, que tanto atormenta o ser humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
  • ALMEIDA, Dom Luciano M. de. Paixão pela Vida: Resposta ao Sofrimento Humano. Osasco: Assessoria de Animação Apostólica.
  • AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995.
  • DEUS E O PROBLEMA DO MAL, texto entregue em sala, p. 122-174.
  • JOÃO PAULO II. Salvifici Doloris: O sentido Cristão do sofrimento humano. 11. ed. São Paulo: Paulinas, 2009. Carta Apostólica.
  • PASQUALE & ULISSES. Gramática da Língua Portuguesa. 2. ed. São Paulo: Scipione, 2003.


[1] Ter a vontade livre é um bem dado por Deus ao ser humano. Segundo Santo Agostinho de Hipona, se o ser humano não recebesse a vontade livre não seria possível agir bem. Cf. AGOSTINHO, Santo, 1995, II, 1,3.
[2] Cf. DEUS E O PROBLEMA DO MAL, p. 141.
[3] A proposta de Heráclito é que “bem e mal são uma só coisa” e só se opõe bem e mal, em razão da visão estreita e parcial do humano. Já Leibniz propõe que se o mal existe, é pelo fato de Deus não podia criar um mundo perfeito. Santo Agostinho lembra que o mal é não-ser e o mal moral e físico são conseqüência do pecado. O sofrimento dos justos é conseqüência do pecado original. Para as duas primeiras propostas, aponta-se que são ineficazes para inocentar Deus, como também são “literalmente escandalosas” diante do sofrimento concreto que o mal provoca. O mal é sempre mal e não se pode justificá-lo. Já quanto a proposta agostiniana, poder-se-ia questionar sobre o sofrimento antes da proposta do pecado original e também sobre sofrimento natural, que não é conseqüência de nenhum pecado.
[4] Cf. Idem, p.126.

Resumo do documento da Igreja sobre a Teologia da Libertação: "Instrução sobre alguns aspectos da 'Teologia da Libertação'"



INTRODUÇÃO
Joseph Ratznger desenvolveu “Instruções sobre alguns aspectos da ‘Teologia da Libertação’” tendo como objetivo principal:
A presente Instrução tem uma finalidade mais precisa e mais limitada: quer chamar a atenção dos pastores, dos teólogos e de todos os fiéis para desvios e perigos de desvios, prejudiciais à fé e à vida cristã, inerentes a certas formas da teologia da libertação que usam, de maneira insuficientemente crítica, conceitos assumidos de diversas correntes do pensamento marxista.[1]
O mesmo autor destaca que o objetivo não é interpretar esta advertência como uma desaprovação de todos aqueles que querem responder generosamente e com autêntico espírito evangélico à “opção preferencial pelos pobres”. Mas, esclarecer e informar que os graves desvios levam inevitavelmente a trair a causa dos pobres.
I – UMA ASPIRAÇÃO
O desejo de libertação constitui um dos principais desejos dos povos e a Igreja é chamada a interpretar essa aspiração à luz do Evangelho. Sobretudo sobre os povos que sofrem com o peso das misérias que se exprimem com vigor. A aspiração citada traduz a percepção autêntica, não de forma perfeita, da dignidade do homem, a qual é rebaixada e menosprezada por múltiplos opressores.
O ser humano é chamado, quando se revela sua autêntica vocação, a ser filho de Deus, sendo assim, há uma exigência de vida fraterna, justa e pacífica. Por este motivo, nenhum ser humano está disposto ao peso esmagador da miséria, que é uma violação de sua dignidade. Além disso, constata-se cada vez mais que a humanidade seria capaz de assegurar o mínimo de bens exigidos pela dignidade humana.
A desigualdade social já não é tolerada, pois:
·         Atingiu-se uma abundância que favorece o desperdício;
·         Vive-se numa situação de indigência;
·         A falta do sentido de solidariedade nos intercâmbios internacionais aumenta a distância entre ricos e pobres, donde se gera a acusação de colonialismo econômico;
A Igreja não pode deixar de denunciar a gigantesca corrida armamentista, lutando sempre contra as guerras e ainda oferecendo ajuda financeira às populações privadas do necessário.
II – EXPRESSÕES DESTA ASPIRAÇÃO
A aspiração pela justiça e pelo reconhecimento da dignidade de cada pessoa exige esclarecimento e orientação. É de suma importância haver um discernimento quanto as expressões teóricas e práticas, pois existem movimentos ideológicos que os utilizam, com bases violentas, alegando que colocarão fim a miséria do povo. Fazendo assim que a aspiração pela justiça se torne prisioneira de ideologias, que levam a violência. É necessário, portanto, que se faça uma autêntica e fiel interpretação dos sinais dos tempos à luz do Evangelho, sempre levando em consideração um discernimento crítico das expressões teóricas e práticas.
III – A LIBERTAÇÃO, TEMA CRISTÃO
A aspiração por libertação é um tema fundamental do cristianismo. Em consonância com a aspiração citada nasce o movimento teológico e pastoral chamado de “teologia da libertação”:
·         Inicia-se nos países da América Latina;
·         Parte para outras regiões do Terceiro Mundo, além de outros ambientes dos países industrializados;
A expressão “teologia da libertação” designa, primeiramente, uma preocupação privilegiada, geradora de compromisso pela justiça, voltada para os pobres e para as vítimas de opressão. Mas, pode-se distinguir diversas maneiras de conceber as significações de pobreza, gerando-se assim as “teologias da libertação”, cujas posições teológicas são diversificas.
            Conforme dito, a aspiração por libertação refere-se a um tema fundamental do Antigo e Novo Testamentos e tomado em si mesmo designa: “uma reflexão teológica centrada no tema bíblico da libertação e da liberdade e na urgência de suas incidências práticas”[2].
            IV – FUNDAMENTOS BÍBLICOS
            Uma “Teologia da Libertação” coerente constitui um convite aos teólogos a aprofundar certos temas bíblicos essenciais, com um espírito atento às graves e urgentes questões que a atual aspiração pela libertação e os movimentos de libertação põem à Igreja. A principal experiência de libertação cristã é a oferecida por Cristo, ao nos libertar da escravidão do pecado e da escravidão da lei e da carne. Sendo assim, as demais formas de escravidão encontram sua raiz mais profunda na escravidão do pecado. E a verdadeira libertação e vida nova se encontra na caridade, ou seja, a vida no Espírito.
            Ratzinger aponta neste tópico uma distinção e esclarecimento sobre diversas propostas de libertação encontradas na Sagrada Escritura, desde o Antigo ao Novo Testamentos – ressaltando as verdadeiras interpretações que se deve fazer dos textos. Pretende-se aqui, apontá-las, seguindo a distinção de ambos os testamentos:
         I.            ANTIGO TESTAMENTO
a)      O livro do Êxodo aponta o evento fundamental na formação do povo eleito e a libertação do povo de Israel está orientada para a constituição do povo de Deus e para o culto da Aliança celebrada no Monte Sinai. Por isso, a libertação do Êxodo não pode se interpretada de natureza unicamente política. Esta experiência de libertação tem Deus como seu principal agente. Isto é, Deus é o Libertador e Ele estabelecerá com seu povo uma nova Aliança, marcada pelo dom do seu espírito e pela conversão de corações.
b)      Nos Salmos, se encontra diversas expressões das múltiplas angústias e desgraças experimentadas pelo homem fiel ao Deus da Aliança: lamentações, pedidos de socorro, ações de graças, que se referem a salvação religiosa e à libertação. Os salmos expressam que somente de Deus se espera a salvação e o remédio para as desgraças sofridas.
c)      Os profetas não cessam de recordar as exigências da justiça e da solidariedade e de formular um juízo extremamente severo sobre os ricos que oprimem o pobre; defendem a viúva e o órfão; prometem ameaças  contra os poderosos; não se concebe a fidelidade à aliança sem a prática da justiça (Justiça em relação a Deus e ao homem são inseparáveis).
      II.            NOVO TESTAMENTO
a)      As exigências do Antigo Testamento são radicalizadas, como se demonstra no discurso das Bem-aventuranças.
b)       O mandamento do amor fraterno é estendido a todos os homens e constitui a suprema norma da vida social; todos são reconhecidos como próximo.
c)      A pobreza por amor ao reino de Deus é exaltada. No pobre se encontra a imagem e presença misteriosa do Filho de Deus, o qual é solidário com toda a desgraça.
d)     As exigências da justiça e misericórdia são aprofundadas a ponto de se revestirem uma significação nova. A perfeição, exigida por Jesus, consiste no dever de ser misericordioso. Os ricos são severamente admoestados para cumprirem o seu dever. Acentua-se vigorosamente a ligação que existe entre o sacramento do amor e o repartir o pão com o irmão que necessita.
e)      “A revelação do Novo Testamento nos ensina que o pecado é o mal mais profundo que atinge o homem no cerne de sua personalidade. A primeira libertação, ponto de referência para as demais, é a do pecado.”[3] São Paulo, ainda, destaca que a libertação que Cristo oferece – ou seja, a libertação do pecado seja para os escravos ou livres – deve necessariamente ter repercução também no campo social.
Sendo assim, não se pode reduzir o campo do pecado ao que se denomina “pecado social”, mas somente uma adequada doutrina sobre o pecado permitirá insistir sobre a gravidade de seus efeitos sociais. Não se deve, portanto, situar o mal unicamente ou principalmente nas estruturas econômicas, sociais ou políticas, como se todos os males derivassem disto, mas deve-se observar que a raiz do mal se encontra nas pessoas livres e responsáveis, que devem ser convertidas pela graça de Jesus Cristo.
            V – A VOZ DO MIGISTÉRIO
            O Magistério da Igreja, com o desejo de responder aos desafios lançados à época deste texto pela opressão e pela fome, relembra repetidamente a atualidade e a urgência da doutrina e dos imperativos contidos na Revelação. O autor limita-se a mencionar apenas alguns destas intervenções: os pronunciamentos pontifícios mais recentes, Mater et Magistra, Pacem in terris, Popularum progressio, Evangelii nuntiandi. Mensiona ainda a carta do Cardeal Roy, Octogesima adveniens. Ainda destaca que o Concílio Vaticano II tratou as questões da justiça e da liberdade na Constituição pastoral Gaudium et spes.
O Santo Padre, João Paulo II, insistiu diversas vezes neste tema, particularmente:
1.      ENCÍCLICAS – Redemptor hominis, Dives in Misericordia, Laborem exercens;
2.      Discurso proferido diante da XXXVI Assembleia geral da ONU e a abertura da Terceira Conferência do Episcopado Latino-Americano, em Puebla;
Por duas vezes tratou-se de temas que se referem diretamente à concepção cristã de libertação no Sínodo dos Bispos, em 1971 e 1974. Diante de tais Sínodos o papa Paulo VI esclarecem a relação que existe entre a evangelização e a libertação ou promoção humana, em Exortação apostólica Evangelii  nuntiandi.
A igreja constitui também a Pontifícia Comissão Justiça e Paz, vista a preocupação com as questões de libertação e promoção humana. Ainda numerosos episcopados têm lembrado a urgência e caminhos para uma autêntica libertação cristã (Medellín em 1968 e Puebla em 1979): “João Paulo II, no discurso de Puebla, lembra quais são os três pilares sobre os quais deve assentar uma autêntica teologia da libertação: a verdade sobre Jesus Cristo, a verdade sobre a Igreja e a verdade sobre o homem[4].
            VI – UMA NOVA INTERPRETAÇÃO DO CRISTIANISMO
            Não se pode deixar de destacar o trabalho desinteressado realizado por cristãos ao prestarem auxílio e proporcionar alívio aos inumeráveis males que são frutos da miséria. Mas, o zelo e a compaixão correm por vezes o risco de se desorientar ou de serem desviados para iniciativas não menos prejudiciais ao homem e a sua dignidade.
            O sentimento angustiante da urgência não pode levar a perder de vista o essencial, que é não só repartir o Pão, mas também atuar com a Evangelização, ambas em uma íntima relação. Alguns ainda acreditam que obter a justiça e liberdade, no sentido econômico e político, constitua o essencial e a totalidade da salvação. Para estes, o Evangelho se reduz a um evangelho puramente humano.
            A opção preferencial pelos pobres é reafirmada com vigor, mas sem deixar de vista uma autêntica e fiel interpretação da mesma.
Ratzinger lembra que já afirmou que existe uma autêntica Teologia da Libertação, mas para ele convém falar das teologias da libertação, pois muitas vezes suas interpretações se afastam gravemente da fé da Igreja – chegando a constituir uma negação prática da fé.
VII – A ANÁLISE MARXISTA
A impaciência e o desejo de ser eficaz levaram a alguns cristãos a voltarem-se para aquilo que chamam de “análise marxista”. O seu raciocínio é o seguinte:
uma situação intolerável e explosiva exige uma ação eficaz que não pode mais ser adiada. Uma ação eficaz supõe uma analise científica das causas estruturais da miséria. Ora, o marxismo aperfeiçoou um instrumental para semelhante análise. Bastará, pois, aplicá-lo à situação do Terceiro Mundo e, especialmente, à situação da América Latina.[5]
            Que o conhecimento científico da situação e dos possíveis caminhos de solução seja o pressuposto básico de uma ação capaz de levar a objetivos fixos é evidente. Mas, nem tudo que ostenta a etiqueta de científico o é necessariamente e tomar o método de abordagem da realidade é algo que deve ser acompanhado de exame crítico, o qual falta a várias “teologias da libertação”.
            No caso do Marxismo se impõe uma crítica prévia. O pensamento de Marx constitui uma concepção totalizante do mundo, onde numerosos dados são integrados a numa estrutura filosófico-ideólogica que determina a significação e a importância relativa que se lhe atribui. Existe um a priori ideológico. Assim a dissociação dos elementos heterogêneos torna-se impossível e se é forçado a ideologia. Paulo VI adverte que:
através do marxismo, tal como é vivido concretamente, podem-se distinguir diversos aspectos e diversas questões propostas à reflexão e à ação dos cristãos. Entretanto, "seria ilusório e perigoso chegar ao ponto de esquecer o vínculo estreito que os liga radicalmente, aceitar os elementos da análise marxista sem reconhecer suas relações com a ideologia, entrar na prática da luta de classes e de sua interpretação marxista sem tentar perceber o tipo de sociedade totalitária à qual este processo conduz".[6]
            Conforme é sabido, o pensamento marxista se diversificou consideravelmente entre si, desde sua origem. Mas, na medida em que se mantém o verdadeiro marxismo, a concepção de homem e sociedade proposta por esta corrente se afasta da concepção cristã (ex.: “Luta de classes”).
            Destaca-se que o ateísmo e a negação da pessoa humana, de sua liberdade e de seus direitos encontram-se no centro da concepção ateísta, a qual ameaça diretamente as verdades de fé sobre o destino eterno das pessoas. Além disso, a utilização dos elementos filosóficos ou das ciências humanas tem um valor instrumental e deve ser objeto de um discernimento crítico de natureza teológica. P critério final e decisivo deve ser sempre o critério teológico.
            Alguns esquemas e interpretações marxistas podem ser analogados à realidade de alguns países, mas tomando por base estas analogias impede-se, de fato, uma análise verdadeiramente rigorosa das causas de miséria e mantêm-se as confusões. Em certas regiões da América Latina, os diversos tipos de dominação constituem fatores que alimentam um violento sentimento de revolta junto àqueles que se consideram vítimas: “A tomada de consciência das injustiças é acompanhada por um pathos que pede muitas vezes emprestado ao marxismo seu discurso, apresentado abusivamente como sendo um discurso ‘científico’”[7].
            Tais tomadas de consciência correspondem a um ponto de vista particular. Esta limitação é ignorada por aqueles que, à guisa de hipóteses reconhecidas como tais, recorrem a uma concepção totalizante, como é o pensamento de Marx.
            VIII – SUBVERSÃO DO SENSO DA VERDADE E VIOLÊNCIA
            A concepção totalizante marxista leva às “teologias da libertação” a aceitar um conjunto de posições incompatíveis com a visão cristã do homem. O núcleo ideológico, tomado do marxismo, exerce a função de princípio determinante e neste núcleo podem-se distinguir diversos componentes:
a)      Na lógica do pensamento marxista a “análise” não é dissociável da práxis e da concepção de história, na qual ambas estão ligadas. A análise é um instrumento de crítica e esta não passa de uma etapa do combate revolucionário. Somente quem participa do combate é considerado autor de uma análise correta.
b)      A consciência verdadeira é a “partidarista”. Afirma-se que não existe verdade, a não ser pela práxis “partidarista”, pois a estrutura fundamental da história está marcada pela luta de Classes. Existe, pois, uma necessidade de entrar na luta de classes.
c)      A luta de classes é apresentada como uma lei objetiva e necessária. A lei fundamental da luta de classes tem um caráter de globalidade e de universalidade. Implica-se, assim, que a sociedade esteja fundada sobre a violência – que é considerada necessária e, por isso, a afirmação do amoralismo político. Donde a natureza da ética é radicalmente questionada.
            IX – TRADIÇÃO “TEOLÓGICA” DESTE NÚCELO IDEOLÓGICO
             A posição apresentada encontra-se, às vezes, enunciada com todos os seus termos em alguns dos escritos de “teólogos da libertação”. Existem os que se deduz logicamente e os que colocam com certas práticas litúrgicas tais posições. Isto é um sistema, onde há uma perversão da mensagem cristã que se encontra em xeque por tais “teologias da libertação”.
            Algumas “teologias da Libertação” recebem a teoria das lutas de classes na qualidade de princípio. Acreditam que a mesma luta divide a própria Igreja e em função dela se devem julgar as realidades eclesiais. Pretende-se lembrá-los que é somente o amor que tem a capacidade de vencer aquilo que constitui a lei estrutural primária da sociedade capitalista.
            A luta de classes é considerada o motor da história, que se torna a noção central e chegando a afirmar que só há uma noção de história, não havendo, assim, necessidade de distinguir entre a história da salvação e a profana. Estas afirmações refletem um imanetismo historicista, onde o processo da auto-redenção do homem se dá na luta de classes na história e o advento do Reino de Deus na libertação humana. Existem os que identificam o próprio Deus com a história e a Fé, a Esperança e a Caridade recebem um novo conteúdo: “fidelidade à história”, “confiança no futuro” e “opção pelos pobres”.
            Desta nova concepção deriva inevitavelmente um politização radical das afirmações da fé e dos juízos teológicos, onde toda e qualquer afirmação de fé e Teologia se vê subordinada a um critério político. O ingresso na luta de classes é visto como exigência da própria caridade. A universalidade do amor ao próximo e da fraternidade transforma-se num princípio escatológico que só terá valor para o “homem novo” que surgirá da revolução vitoriosa.
            A Igreja, que é dom da graça e mistério de fé, é vista como uma realidade dentro da história, sujeita às leis que governam o devir histórico na imanência. Contesta-se a participação da mesma mesa eucarística de cristãos de classes opostas. A Igreja dos pobres, em sua real significação, indica preferência, sem exclusivismo, dada aos pobres[8], que são os prediletos de Deus. Significa ainda que a Igreja tanto como comunhão ou instituição deve tomar consciência das exigências da pobreza evangélica.
            Porém, as “teologias da libertação”, que se dizem revalorizadoras dos textos bíblicos quanto a defesa dos pobres, passam a fazer uma amálgama perniciosa entre o pobre d Escritura e o proletariado de Marx. Donde se perde o verdadeiro sentido cristão de pobre e o combate por direitos se torna uma luta de classes, onde a Igreja dos pobres é a Igreja classista.
            Há um esclarecimento sobre Igreja do povo, cujo significado é, do ponto de vista pastoral, a Igreja dos destinatários principais da evangelização ou o povo da Nova Aliança realizada em Cristo. Mas, as “teologias da Libertação” entende o termo “Igreja do povo” como Igreja da luta libertadora organizada e o povo acaba tornando-se objeto de fé. E esta concepção faz elaborar uma crítica das próprias estruturas da Igreja, onde se denuncia a Hierarquia e o Magistério.
            X – UMA NOVA HERMENÊUTICA
            Os teólogos que não compartilham as teses da “teologia da libertação”, a hierarquia e, sobretudo, o Magistério são assim desacreditados a priori, como pertencentes à classes opressoras. A Teologia deles é uma teologia de classes. E tendo em vista que seu discurso é simplesmente do interesse de uma classe decreta-se que é um discurso, em princípio falso.
            Por causa desse pressuposto classista torna-se extremamente difícil, talvez até impossível, um diálogo como alguns “teólogos da libertação”, onde o interlocutor seja ouvido e seus argumentos sejam discutidos. Estes teólogos partem do ponto de vista da classe oprimida e revolucionária, que seria ao mesmo tempo constituir um único ponto de vista da verdade e, sendo assim, os critérios teológicos da verdade vêem-se relativizados e subordinados aos imperativos da luta de classes. Nesta aspecto subistitui-se a ortodoxia pela ortopráxis, a qual é tomada como verdade. A práxis revolucionária se tornaria assim, para eles, o critério supremo da verdade teológica. Contudo, uma metodologia teológica sadia toma em consideração a práxis da Igreja e nela encontra seus fundamentos.
            A doutrina social da Igreja é rejeitada com desdém. A nova hermenêutica inserida nas “teologias da libertação” conduz a uma releitura essencialmente política da Escritura, por isso se atribui a máxima importância ao evento do Êxodo enquanto libertação da escravidão política e ainda uma leitura política do Magnificat. O erro desta leitura é
            Privilegiar a dimensão política, como principal e exclusiva, em uma hermenêutica é ao mesmo tempo:
ü  Colocar a perspectiva messiânica como temporal, gerando uma das expressões mais radicais da secularização do Reino de Deus.
ü  Negar a radical novidade do Novo Testamento e, antes de tudo, desconhecer a pessoa de Jesus Cristo, bem como o caráter específico da libertação do pecado, fonte de todos os males.
ü  Colocar em oposição o “Jesus da história” e o “Jesus da fé”.
            Colocar a interpretação autorizada do Magistério, denunciada como interpretação de classes, é afastar-se automaticamente da Tradição. Chegando-se assim acolher as teses mais radicais da exegese racionalista. Chegando-se assim a rejeitar, de um lado, a doutrina cristológica apresentada pela Tradição e, de outro lado, pretende-se chegar ao “Jesus da história” a partir da experiência revolucionária da luta dos pobres pela sua libertação. A experiência dos pobres é vista como a que teria tido Jesus, os quais estão lutando por sua libertação e somente ela seria capaz de revelar Deus.
            Assim a fé no Verbo encarnado, morto e ressuscitado, é negada e assume-se o Jesus que resume em sim mesmo as exigências da luta dos oprimidos. A morte de Cristo toma um sentido unicamente político, o que nega o seu valor salvífico e toda a economia da redenção.
            De modo geral, há uma nova interpretação que atinge o todo do conjunto cristão e assim ocorre uma inversão dos símbolos:
Ø  O Êxodo é visto como um símbolo da libertação política do povo;
Ø  Aplica-se a vida eclesial e à constituição hierárquica da Igreja, as relações entre a hierarquia e a “base” tornam-se relações de dominação que obedecem à lei das lutas de classes. A sacramentalidade é reduzida a uma análise puramente sociológica e simplesmente é ignorada.
Ø  A inversão dos símbolos no domínio dos sacramentos. A eucaristia torna-se celebração do povo em luta. A eucaristia se torna, deste modo, Eucaristia de classes.
            XI – ORIENTAÇÕES
            Chama-se atenção para os graves desvios que algumas “teologias da libertação” trazem consigo não deve ser entendida como uma aprovação aos que contribuem para uma manutenção da miséria dos povos. A Igreja escuta o clamor pela justiça e deseja responder com todas as suas forças. E os pastores, sacerdotes, religiosos e leigos são chamados a atender estes apelos e trabalhar em comunhão com seus bispos e com a Igreja. Os teólogos, conscientes do caráter eclesial de sua vocação, colaboram com um diálogo fiel com o Magistério da Igreja, cujas orientações e palavras acolheram com respeito fiel.
            Somente seguindo a tarefa evangelizadora e tendo como pilares indispensáveis a verdade sobre Jesus cristo, a verdade sobre a Igreja, a verdade sobre o homem e sua dignidade, tomadas à luz das bem-aventuranças, é  que a libertação autêntica tem sua promoção. A Igreja deve falar em nome da verdade, levando em conta cada realidade humana, cada injustiça, cada tensão, cada luta.
             A defesa eficaz da justiça deve apoiar-se na verdade do homem, criado a imagem de Deus e chamado a filiação divina. O fundamento da justiça deve ser a relação do homem com Deus, tendo este como regulador da relação dos seres humanos entre si. O combate pela justiça exige que esteja de acordo com a dignidade humana e não baseado na violência, a qual rebaixa a dignidade do homem.
            Existe uma urgência de reformas radicais incidam sobre estruturas que segregam a miséria e constituem, por si mesma, formas de violência. Somente se obterá mudanças sociais se for feito um apelo às capacidade éticas da pessoa e à constante necessidade da conversão interior. Não serão novas estruturas que darão origem por si mesma a um “homem novo”, mas é o Espírito Santo que é a fonte de toda verdadeira novidade.
            O uso da violência revolucionária não é o começo da instauração de um regime justo e a luta de classes é um mito que impede s reformas e agrava a miséria e as injustiças.
            Uma das condições para uma necessária retificação teológica é a revalorização do magistério social da Igreja, que é aberto a todas as novas questões dos tempos atuais. Do mesmo modo, a experiência daqueles que trabalham diretamente na evangelização e na promoção do pobres e dos oprimidos é necessária à reflexão doutrinal e pastoral da Igreja. O ensino da Igreja em matéria social proporciona as grandes orientações éticas, mas para atingir diretamente a ação necessita de pessoas competentes em todos os âmbitos científicos, técnicos e no domínio das ciências humanas e da política.
            As teses das “teologias da libertação” estão sendo largamente difundidas em cursos de formação ou nas CEB’s  para pessoas generosas que carecem de formação e catequética e teológica. Por isso, faz-se necessária uma vigilância ao conteúdo da catequética e das formações. Nesta apresentação integral do mistério de cristão que as “teologias da libertação” tendem especialmente a desconhecer ou eliminar.
CONCLUSÃO
Ratzinger encera o texto citando as palavras de Paulo VI que exprimem a fé da Igreja, da qual ao se afastar provocar-se-ão novas misérias e novas escravidões:
“Nós professamos que o Reino de Deus iniciado aqui na Terra, na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja figura passa, e que seu crescimento próprio não se pode confundir com o progresso da civilização, da ciência ou da técnica humanas, mas consiste em conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar cada vez mais corajosamente os bens eternos, em responder cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez mais amplamente a graça e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o bem temporal dos homens. Não cessando de lembrar a seus filhos que eles não têm aqui na Terra uma morada permanente, anima-os também a contribuir, cada qual segundo a sua vocação e os meios de que dispõem, para o bem de sua cidade terrestre, a promover a justiça, a paz e a fraternidade entre os homens, a prodigalizar-se na ajuda aos irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes. A intensa solicitude da Igreja, esposa de Cristo, pelas necessidades dos homens, suas alegrias e esperanças, seus sofrimentos e seus esforços, nada mais é do que seu grande desejo de lhes estar presente para os iluminar coma luz de Cristo e reuni-los todos nele, seu único Salvador. Esta solicitude não pode, em hipótese alguma, comportar que a própria Igreja se conforme às coisas deste mundo, nem que diminua o ardor da espera pelo seu Senhor e pelo Reino eterno”[9].


[1] p. 06.
[2] nº 04.
[3] nº 12.
[4] nº 08.
[5] nº 02
[6] nº 07.
[7] nº 12.
[8] No seu sentido amplo e real, em todas as suas formas de miséria humana. (cf. nº09)
[9] p. 53-54.

Estudo da Perícope Mc 7, 1-23



INTRODUÇÃO
            Este trabalho exegético irá trabalhar o texto de Marcos 7, 1-23. No qual, Marcos trata sobre a discussão de Jesus com os Fariseus e Escribas sobre os rituais de purificação que os judeus propunham e que Jesus condena, por sua exteriorização. Mas, o grande enfoque desse texto é destacar, para os cristãos, o que é impuro e puro.
            Primeiramente será feita uma análise do texto no seu contexto, apontando a delimitação do texto – com todos elementos possíveis de se analisar – e a estrutura interna da perícope.
            No segundo momento, será feita uma análise semântica do texto, apontando os estudos de cada versículo e/ou discurso feito por Jesus, bem como as ações,os lugares e as personagens presentes no texto.
            Num terceiro momento pretende-se apontar, em primeiro lugar, o contexto situacional, no qual se encontra o autor e o texto trabalhados. Em seguida, se fará uma tentativa de atualização do texto para o contexto atual, seja em sua dimensão pessoal ou comunitária.
I – O texto no seu contexto
1.     Unidade e singularidade do texto

1.1.  Delimitação da Perícope

            Faz-se necessária, conforme programado, uma análise sistemática, literária e contextual desta perícope. O primeiro aspecto fundamental é apontar o contexto em que se encontra a perícope no Evangelho, ressaltando: o contexto remoto e o contexto próximo. Logo em seguida, poder-se-á trabalhar os elementos narrativos e retóricos.
            O contexto remoto em que se encontra o texto é da primeira parte do evangelho, após o prólogo. Nesta primeira etapa do Evangelho, Marcos quer apontar Jesus como o messias[1]. Não um messias político, mas um messias que vem trazer a boa nova do Reino de Deus. Nesta divisão do Evangelho, o texto se encontra numa “seção chamada do pão, porque o tema guia é orquestrado ao redor do pão”[2]. A perícope aqui trabalha é chamada, por Camacho, de “tríptico central”, pois divide a seção em duas partes: a primeira gira em torno da partilha do pão para uma multidão de judeus; e a segunda em torno da partilha para a multidão pagã.[3]
            A perícope se encontra entre duas curas. A primeira é identificada como “curas na região de Genesaré”, possível local onde acontece a discussão entre Jesus, os Fariseus e os Escribas. Já a segunda é intitulada como “cura da filha de uma siro-fenícia”, nesta perícope Jesus já havia se retirado do local onde se encontrava e se dirigido para o território de Tiro.

a)      ELEMENTOS NARRATIVOS

            Nesta análise pretende-se apontar o estilo de narração; o gênero literário, os personagens, o espaço e o tempo utilizados na perícope.
            Quanto ao estilo narrativo é o evangélico, pois é um relato sobre a vida de Jesus, o qual aponta o fato, os atos e as falas dos personagens, e no qual também pode-se uma mensagem e ensinamentos de Jesus. O gênero literário encontrado nesta perícope é o de narração, contendo o diálogo entre Jesus e os fariseus, três discursos de Jesus – o primeiro dirigido aos fariseus, o segundo a multidão e o terceiro aos discípulos. O texto também contem uma “parábola”, a qual recebe esse nome pelo próprio evangelista.
            As personagens que se encontram no relato são: Jesus, os fariseus e escribas, a multidão e os discípulos. Há dois locais, nos quais se encontram: num primeiro momento Jesus se encontra em algum lugar público na Galiléia[4] e em seguida eles se dirigem para uma casa na mesma cidade, onde Jesus ensina seus discípulos. O texto não indica diretamente o tempo em que se encontram, mas pode-se induzir-se que é num horário de refeição, pois os discípulos estavam se alimentando de pão.

b)      ELEMENTOS RETÓRICOS

            Neste tópico pretende-se destacar os elementos retóricos do texto: paralelismo; possíveis perguntas retóricas, conexão lexicais ou temáticas.
            O texto só tem um paralelo, o qual se encontra em Mt 15, 1-20.[5] Ele não tem perguntas retóricas, porém pode-se destacar as citações que Jesus faz dos textos de Isaías (Is 29,13) e  Êxodo (20,12). O texto recebe um conectivo lexical, καί, no qual o evangelista tem o desejo de apontar que Jesus se encontra ainda na Galiléia.

1.2.  Estrutura interna da perícope

            A perícope contém 23 versículos, os quais são articulados pela Bíblia de Jerusalém em duas seções: a primeira de 1-13 e a segunda de 14-23.
            Na primeira divisão se encontram: O v. 1 é a introdução do texto e aponta a chegada do escribas e fariseus, reunindo-se em torno deles; Os v. 2 – 4 relatam sobre a percepção que os escribas e fariseus têm dos discípulos que se alimentam sem lavar suas mãos e a explicação que o evangelista faz sobre o ritual judeu; O v. 5 apresenta a pergunta feita pelos fariseus e escribas para por Jesus a prova sobre a tradição dos antigos; Nos v. 6 – 13, encontra-se o primeiro discurso de Jesus, no qual ele acusa os fariseus de hipócritas e aponta seus erros e descumprimento dos mandamentos.
            Na segunda divisão se encontram: O v. 14 que é o chamado que Jesus faz às multidões e sua motivação para audição e compreensão; no v. 15, a chamada “parábola” que Jesus faz para as multidões, com a presença dos discípulos; o v. 16, é discutida sua originalidade[6], mas, no mesmo, Jesus chama a percepção para “quem tiver ouvidos”; o v.17 apresenta a retirada de Jesus e seus discípulos da multidão, a entrada numa casa e a interrogação dos discípulos sobre a parábola; nos v. 18-23, Jesus se decepciona com os discípulos, por sua falta de compreensão e dá a explicação de tudo que havia dito para os fariseus e a multidão.

II – Análise Semântica

            Este texto tem como ponto focal apresentar a nova compreensão da vontade de Deus, o valor das normas para abrir caminho de salvação para todos sem barreiras nem privilégios de castas[7]. Além de destacar a verdadeira pureza para os discípulos e a multidão. Procurando aprofundar cada questão trazida neste texto passa-se a um aprofundamento semântico de cada perícope.
            v. 1 – Esta perícope é iniciada pelo conectivo de ligação καί, o qual une a perícope à anterior e ainda expressa que Jesus se encontra no mesmo local, reunido com seus discípulos e toda a multidão. Os judeus continuam sua conspiração contra Jesus, pois ele era considerado uma ameaça, e enviam “alguns escribas” vindos da capital, Jerusalém, para vê-lo.
            Segundo Champlin, Jesus era considerado, pelos judeus uma ameaça política e religiosa: Política, porque os judeus tinha medo de que os romanos vissem em Jesus um revolucionário e decidissem enviar suas legiões sem misericórdia; Religiosa, porque Jesus era considerado um fanático que estava furtando a imponência deles e enfraquecendo a sua autoridade, com o discurso sobre o Reino de Deus, cujo rei era ele mesmo[8].
            O que marca essa perícope é a capacidade e alcance que tomou a fama e as intrigas contra Jesus. A própria capital, Jerusalém, já estava envolvida e já recebe notícias de Jesus. Além disso, se expressa o quanto Jesus já está incomodando, a ponto de provocar a união do grupo dos escribas e fariseus para tentarem derrotá-lo.
            v. 2 – 4. Faz-se necessário aqui mostrar a origem das leis judaicas que fariseus e escribas acusam os discípulos de Jesus de estarem violando ao comerem com as mãos sem lavar: “A lei obrigava os sacerdotes a lavarem mãos e pés antes de entrarem no santuário e a consumarem a parte dos sacrifícios que lhes tocava em estado de pureza ritual.[9]”. Isto é, a lei propõe aos sacerdotes que façam a devida purificação antes de entrar no santuário e oferecer o sacrifício. Os escribas estenderam essa lei às refeições ordinárias, as quais são consideradas como ato sagrado.
            Ademias, essa postura dos fariseus e escribas se expressa pela sua mentalidade de povo escolhido, “santo-consagrado”. Os fariseus e escribas estão condenando o ato dos discípulos de comer com as mãos impuras, pela orientação e crença que tem quanto ao profano e santo. Para eles, por serem um povo santo, devem se purificar todas as vezes que tiverem contato com os alimentos que os outros povos também tiveram. Até mesmo aqueles que eram judeus e não seguiam as estas leis eram considerados “profanos” e ter contato com eles punha em perigo a própria consagração a Deus: “Criavam assim dupla discriminação: dentro do povo, excluíam as camadas inferiores que não seguiam rigorosamente a interpretação farisaica da lei. Fora do povo, eles excluíam os pagãos.”[10] 
                Marcos ainda faz um parêntese explicativo no qual explana a seus leitores os costumes judeus, conforme a Tradição dos Antigos, a qual era o cumprimento de muitos preceitos estabelecidos pelos doutores da lei que militavam em suas fileiras, estribados em interpretações pessoais aplicadas à legislação vereto-testamentária[11].
            v.5. Os fariseus se incomodam com a postura dos discípulos e questionam sobre o comer com as mãos impuras. Ao invés de voltarem sua pergunta diretamente aos discípulos, eles se voltam para Jesus, expressando assim que o seu objetivo nem era tanto fazer com que o cumprimento da lei acontecesse, mas antes de encontrarem alguma forma de embaraçar Jesus diante das multidões.
            Segundo Champlin, “o significado de Cristo é que ele veio abalar as tradições. Nenhuma busca pela verdade pode limitar-se a “formas eclesiásticas” ou “tradições denominacionais”[12]. Isto é, Jesus está pondo abaixo estas leis  e preceitos que são consideradas para os judeus como fundamentais, as quais acabam oprimindo o povo e afastando-se da verdadeira vontade divina.
            v. 6 – 8. Jesus faz uso do Antigo Testamento e acusa os fariseus e escribas de hipócritas. Jesus está observando neles o culto hipócrita[13], manifesto no culto exterior. Observa-se aqui, que Jesus não está simples e diretamente refutando a discussão sobre a pureza ritual, mas ele parte para uma crítica a uma questão mais profundo: a relação entre tradição humana e vontade de Deus.
            Ao citar Isaías, Jesus faz com que seja percebido o falso culto que os fariseus e escribas estão fazendo a Deus, ressaltando que a tradição profética já os havia acusado. Além disso, ele conclui apontando que os mandamentos que se apegam de forma desnecessária são apenas mandamentos humanos e não divinos:

Jesus mostrou que a – própria tradição profética – antecipara tais perversões que os legalistas incorporariam em seu sistema. Ao invés de frisar o absurdo de vários pontos inferiores em seu sistema, ele mostrou que tinham deslocado mandamentos realmente importantes da lei[...][14]

            v. 9 – 13. Jesus faz a afirmação de que os Fariseus e Escribas são hábeis em deixar de cumprir os mandamentos de Deus para cumprir os mandamentos humanos. Jesus destaca especialmente um fato para exemplificar como certos preceitos humanos podem fazer com que os homens pequem contra os mandamentos divinos. Jesus está destacando o quando essas leis humanas são capazes de desumanizar a pessoa, negando-lhe o que há de bem para fazer.
            Eles com as leis humanas acabam exaltando-as acima do próprio Deus que propõem o cumprimento de seus mandamentos. O mandamento citado por Jesus: honra teu pai e tua mãe: aquele que amaldiçoar pai e mãe, certamente deve morrer é tão radical que requer a morte dos que não o cumprem:

Se o preceito de honrar os pais – isto é, de sustentá-los, segundo a linguagem bíblica – é resumido a uma prescrição externa, o homem será bastante hábil para rodeá-lo e justificar moral e religiosamente seu comportamento.[15]

                Assim sendo, Jesus está apontando que o apego às leis humanas faz com que os fariseus e escribas invalidem a verdadeira e santa Palavra e Lei de Deus. Eles fogem da verdadeira ordem de Deus, que é o amor: “enquanto, a piedade para com Deus deveria expressar-se no amor ao próximo, eles pretendem honrar a Deus descuidando do homem ou desprezando-o.”[16]
            v. 14. Jesus se volta ao povo, cuja presença é muito marcante junto a Jesus no evangelho de Marcos: “Nas narrativas de Marcos, o povo estava sempre próximo.”[17]. Este texto expressa dois aspectos: o primeiro que povo estava com atenção em outra coisa que não era Jesus e o segundo é que Jesus quer ensinar e admoestar o povo sobre o que vem a ser o puro e impuro.
            Sobre o primeiro e segundo aspectos, Camacho afirma que

A multidão representa o segundo grupo de seguidores, os que não provem do judaísmo; não estiveram presentes numa discussão que se referia aos usos judaicos, mas agora Jesus vai enunciar um princípio válido para todas as pessoas, e por isso a convoca.[18]

Isto é, no primeiro aspecto, Jesus se mostra preocupado com todos, tanto os que têm conhecimento como os que não têm; já no segundo aspecto, Jesus mostra sua disponibilidade em ensinar e admoestar o povo. Seu ensinamento não é particular dos judeus, mas é dado a todos, sem exceção.
            v. 15. Neste versículo, Jesus expressa sua doutrina a partir de uma perspectiva diferente da dos judeus. Ele não está mais preocupado com as abluções rituais – as quais ficam em um segundo plano –, mas com a alimentação.[19] Jesus está apontando a diferença entre os preceitos ético-religiosos para os preceitos higiênico-rituais.
            O objetivo principal é dizer que as coisas não podem ser puras ou impuras para o ser humano, mas sim o humano pode mostrar sua pureza ou não diante de seus comportamentos. Ou seja, somente o humano pode mostrar sua pureza de coração e não os alimentos que o ser humano venha a ingerir.
            v.16. Para o estudo deste versículo será de grande proveito a observação feita por Champlin: “Este Versículo não faz parte autêntica de Marcos neste ponto. Algum escriba posterior adicionou uma note bene no meio da história. A declaração, porém, saiu com freqüência dos lábios de Jesus.”[20]
            v. 17. Este versículo declara a caminhada que Jesus faz até o ensinamento particular a seus discípulos. Com estas palavras, Marcos afirma que os discípulos não compreenderam o que Jesus tinha dito Jesus e ele irá continuar seu ensinamento agora fora da multidão: “Igualmente os discípulos não entenderam o sentido daquela enigmática palavra; mas, sendo eles homens fiéis e dispostos à fé, abre-lhes Jesus, no círculo interno [...]”[21]
            Neste versículo duas palavras usadas pelo evangelista são fundamentais destacar e explicar: casa e parábola. Quanto a casa, pode-se interpretá-la como a casa do novo Israel, a qual é o lugar onde se encontram os discípulos e somente eles[22]; quanto ao chamado que Marcos dá a palavra anterior de Jesus como parábola, pode-se afirmar, junto com Camacho, que os discípulos

Não entendem a palavra de Jesus, que aparece igualar o israelita ao pagão. Por isso lhe perguntam em particular. Sua resistência em admitir a igualdade entre os povos faz com que vejam o dito como uma parábola, ou seja, como um enigma cujo sentido não é o que aparece à primeira vista, sem recordar que Jesus falava em parábolas somente para “os de fora”[23]

            v.18-19. Jesus expressa primeiro sua decepção em relação aos discípulos, pois eles estão juntos dele e se manifestam como alguém que “está de fora”[24]. Em seguida, Jesus explica aos discípulos sua afirmação e aponta-a como se referindo diretamente à questão dos alimentos. Pode-se notar aqui que Jesus não se sente intimidado em falar das coisas naturais para os seus discípulos.[25]
            Tal afirmação faz com que Marcos inclua ao texto uma afirmação sobre o modo como Jesus expressa que os alimentos não podem trazer a impureza, mas sim que esta se encontra no humano, conforme já foi dito acima. Além disso, o evangelista usa-se dessas palavras para mostrar que os alimentos são declarados puros por Jesus, em detrimento a cultura judaica que conservava uma mentalidade sobre impureza em determinados alimentos e pessoas. Jesus está pondo em destaque neste versículo a bondade do mundo e das criaturas, os quais foram criados, por Deus, bons:

Tal ponto de vista é no mínimo independente e avançado para os judeus, que conservaram conceitos antiquados sobre “pureza” de determinados animais e alimentos e até que a gente se tornava impuro por fenômenos naturais (do âmbito sexual por exemplo) e por contatos (como leprosos e cadáveres), enfim tabus cúlticos. A atitude de Jesus corresponde à sua abertura positiva ao mundo e às criaturas e se conserva na Igreja primitiva, que abandona a distinção entre animais “puros e impuros” bem como os correspondentes preceitos alimentares (At 10,11-15,28)[...] [26]

            v. 20-23. Jesus chega a afirmação de que o que sai do íntimo é que realmente pode contaminar. Jesus está lembrando que a maldade não se encontra nas coisas, ou externa ao ser humano, mas dentro da pessoa, em seus atos de maldade, egoístas e auto-suficientes. Jesus tem o desejo de superar essa visão e tabu de que a impureza se encontra na exterioridade ou ainda em povos diferentes:

O reino de Deus e sua justiça, que se tornaram próximos em Jesus expressam também a última intenção da vontade de Deus: a integridade e a liberdade do homem. Se a maldade não está nas coisas, o homem é libertado de todo falso tabu e constituído à sua integridade; se o seu destino salvífico var ser decidido de dentro, do coração, a liberdade e a responsabilidade não são uma concessão, mas uma tarefa fundamental para o homem.[27]

            Os versículos seguintes a afirmação de Jesus trazem uma lista de doze vícios, em cujo elenco se encontram seis no singular e seis no plural. Pode-se observar que esses erros e vícios são todos se referindo ao humano, com isso Jesus destaca que “a relação com Deus não depende da observância de normas ou de gestos religiosos, mas da atitude para com os demais homens”.[28]
            A perícope é encerrada generalizando que toda e qualquer impureza e contaminação procedem de dentro, do íntimo do homem e não de cerimônias e/ou alimentos. Jesus deixa a responsabilidade do erro e pecado sobre o ser humano e assim a aplicabilidade da Lei moral é levada para a intimidade humana e não sua exterioridade.


III – Atualização do texto e seu efeito pragmático
3.1. O contexto situacional da Comunidade Marcos
            Basicamente este tópico gira em torno de três perguntas básicas: “quem é Marcos?”; “Quando foi escrito o Evangelho?” e “Para quem Marcos o escreveu?”[29]. Tendo tais questões em vistas pode-se entrar em uma busca de respostas.
            Para a primeira questão pode-se dizer que Marcos está ligado a Pedro, o apóstolo. Marcos é chamado por papias de “intérprete de Pedro” e também como o responsável por compilar – mesmo que não em ordem – os feitos do Senhor[30]. Além disso, Marcos acompanhou também Paulo em sua primeira visita missionária junto com Barnabé[31]. Ele possui dois nomes João e Marcos – o primeiro é judaico e o segundo é helênico – expressando assim seu conhecimento da cultura judaica e da linguagem grega. Sendo assim, afirma-se que o nome original do autor do Evangelho é João Marcos, que era presbítero e teve contato com duas grande figuras do cristianismo nascente: Pedro e Paulo.
            Quanto a segunda pergunta, Clemente de Alexandria afirma que o texto foi redigido no final da vida de Pedro e Irineu que foi anos depois da mesma morte. Isto indica que o texto foi redigido por volta da década de 60-70[32].
            Finalmente, à terceira pergunta pode-se afirmar que o Evangelho tem como destinatário a comunidade nas regiões da Itália, para ser mais específico Roma. Além disso, pode-se constatar que encontram-se muitas explicações sobre os costumes judaicos, o que leva a crer que ele está escrevendo para pessoas provindas do paganismo.[33]
            Portanto, segundo Herrero, o Evangelista é João Marcos, o qual acompanhou Pedro e Paulo – as grande figuras do cristianismo nascente; a possível data de elaboração do evangelho é a década de 60-70 e os destinatários são, possivelmente, as pessoas provindas do paganismo que se encontram em Roma e nas regiões da Itália[34].


3.2. O efeito pragmático do texto no leitor atual
         O texto é iluminador pela presença de todas as questões morais e éticas quando ao mal, o qual não está simplesmente no fato de transgressão de leis, mas sim nos problemas da liberdade humana mal usada. Tendo isto, em vista pretende-se abordar aqui uma contextualização das propostas de Jesus para a atualidade, destacando: o ritualismo encontrado hoje nas Igrejas, bem como a religiosidade externa; o respeito a cada opção de vida e cada ser humano; e as implicações morais sobre a negação da responsabilidade humana diante do mal e pecado.
            Na atualidade, o problema da exteriorização das expressões religiosas ainda existe. Muitos desejam expor sua fé através de ritos e presença física em eventos religiosos e celebrações. Ainda existem os que acreditam que a fé é uma simples expressão verbal e não uma assimilação existencial da proposta trazida por Deus.
            Sendo assim, as palavras de Jesus Cristo, nesta perícope trabalhada, remetem à postura autêntica de que cada fiel deve louvar a Deus não somente com as palavras, mas também com seu coração. Como dito, a fé é uma opção existencial antes de tudo e requer do crente uma postura e vivência do que é assumido em sua vida. O texto faz com que seja lembrada a verdadeira postura do Cristão que alimenta-se da palavra e da eucaristia (participação dos ritos religiosos), mas que principalmente vive a real caridade, que ambas requerem de cada um.
            Além disso, Jesus lembra o respeito a cada pessoa humana, principalmente os familiares e próximos necessitados da caridade fraterna. Ele é muito rígido com os fariseus que propõe um certo desprezo e descuidado para com os pais (comparados aqui com os necessitados) em busca da oferta e dízimo a Deus. Em muitas igrejas e seitas, cuja linha é da teologia da prosperidade, percebe-se a valorização da entrega do dinheiro e da posse de bens em detrimento das ações de caridade e ajuda ao próximo. Esta é uma postura que acaba sendo egoísta e centralizadora, pois remete ao apego aos bens materiais (no evangelho leis e preceitos humanos), o qual vai contra uma postura de ajuda mútua e conquista de uma sociedade mais igualitária, tanto para os poderosos (Fariseus e escribas), como para os menos favorecidos (judeus e trabalhadores).
            Também, pode-se destacar a apresentação da culpabilidade e da responsabilidade humana. Jesus expressa claramente que o ser humano é o grande responsável por todos os atos errôneos e impurezas existentes e não simplesmente os alimentos: “Com efeito, é de dentro, do coração dos homens que saem as intenções malignas [...]”[35].
            Na contemporaneidade, o ser humano cada vez mais busca encontrar meios para não poder assumir sua real responsabilidade diante do mal , em suas diversas facetas. Essa busca ainda é remetida para a exterioridade. Não mais nos alimentos, pois estes só podem causar, no máximo, um mal físico (devido a sua má conservação, data de validade, má preparação, etc.), mas justificando-se através do sistema social, problemas psicológicos ou ainda incapacidades humanas.
            Ora, aqui não está se negando que talvez estes possam influenciar em pessoas totalmente conscientes, porém não se pode negar a responsabilidade destas, pois devem assumi-la, tanto nos atos maus quanto bons.
            Salienta-se, ainda, que a visão de pecado não pode ser também reduzida a uma simples transgressão da lei. Deve, sim, ser vistas como um agir moral humano que pode induzi-lo a uma dependência viciosa em sua vida (ex.: adultério, ambição desmedida). Fazendo com que a pessoa trate o pecado como um fato rotineiro e não tente superar o seu erro.
            Portanto, o texto trabalhado é de suma importância esta perícope de Mc 7, 1-23, pois relembra de aspectos fundamentais da vida cristão e da vida moral, como: a atitude existencial cristã que todos são chamados, ou seja, o amor fraterno, tanto em palavras como em ações; uma autêntica busca do bem dos mais necessitados e próximos; uma responsabilidade dos atos humanos, tanto bons como maus e pecaminosos.
Referências bibliográficas

·         BÍBLIA DE JERUSALÉM. A.T e N.T. 6. ed. São Paulo: Paulus, 2010.
·         BARBAGLIO, G; FABRIS, R; MAGGIONI. Os Evangelhos. São Paulo: Loyola, 1990. v. I. (citado ao longo do texto com a sigla: OS EVANGELHOS, 1990, p.)
·          CAMACHO, F.; MATEUS, J. Marcos: Textos e comentários. São Paulo: Paulus, 1998. (citado ao longo do texto com a sigla: MARCOS: Textos e comentários, 1998, p.)
·         CHAMPLIN. R. O novo Testamento interpretado. São Paulo: Editora e distribuidora Candeia. (citado ao longo do texto com a sigla: O N.T. INTERPRETADO, p.)
·         HERRERO, F. P. Evangelho segundo São Marcos. In: OPORTO, S. G.; GARCIA, M. S. (org.). Comentário ao Novo Testamento. São Paulo: Ed. Ave-Maria, 2006. (citado ao longo do texto com a sigla: COMENTÁRIO AO NOVO TESTAMENTO, 2006, p.)
·         LANCELLOTTI, A (org.). O Evangelho querigmático: Segundo Marcos. Petrópolis: Vozes, 1977. (citado ao longo do texto com a sigla: O EVANGELHO QUERIGMÁTICO, 1977, p.)
·         SCHNACKENBURG, R. O Evangelho segundo Marcos. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1983. (citado ao longo do texto com a sigla: O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS, 1983, p.)



[1] COMENTÁRIO ANO NOVO TESTAMENTO III, 2006, p. 123.
[2] OS EVANGELHOS, 1990, p. 484.
[3] Cf. MARCOS: texto e comentários, 1998, p.168.
[4] Cf. O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS, 1983, p. 182.
[5] Cf. MARCOS: Textos e comentários, 1998, p. 181-187.
[6] Será tratado sobre isso abaixo, na semântica do versículo.
[7]Cf. OS EVANGELHOS, 1990, p.496.
[8] Cf. O N.T INTERPRETADO, p.715.
[9] O EVANGELHO QUERIGMÁTICO, 1977, p.74.
[10] MARCOS: Textos e comentários, 1998, p.182.
[11] Cf. O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS, 1983, p. 185.
[12] O N.T. INTERPRETADO, p.717.
[13] Os críticos de Jesus são chamados de ὑποκριτῶν, isto é, “atores”, fingidos religiosos; e isso os situou na posição de “falsos” representantes da fé religiosa [...] Os fariseus haviam trazido o teatro para dentro da religião (Cf. Idem)
[14]Idem
[15] OS EVANGELHOS, 1990, p. 496.
[16] MARCOS: Textos e comentários, 1998, p. 185.
[17] O N.T. INTERPRETADO, p. 719.
[18] MARCOS: Textos e comentários, 1998, p.186.
[19] Cf. O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS, 1983, p. 190
[20] O N.T. INTERPRETADO, p.719. No texto do Ap. 2, 7, este ouvir é chamado de audição do que o Espírito Santo diz. Talvez se explique que o ouvir os ensinamentos de Cristo requer uma abertura para a ação do Espírito Santo de Deus.
[21] O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS, 1983, p. 191
[22] Cf. MARCOS: Textos e comentários, 1998, p.187.
[23] Idem.
[24] Cf. Idem, p.188.
[25] Cf. O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS, 1983, p.191
[26] Idem, p.191-192.
[27] OS EVANGELHOS, 1990, p. 498.
[28] MARCOS: Textos e comentários, 1998, p.188.
[29] Cf. COMENTÁRIO AO NOVO TESTAMENTO III, 2006, p.130
[30] Idem, p. 131.
[31] At 12,25; 13,5.
[32] Cf. COMENTÁRIO AO NOVO TESTAMENTO III, 2006, p.132
[33] Idem
[34] Cf. Todas as respostas no texto de Herrero: Idem, Introdução.
[35] Mc 7, 21.